Texto: Paulo Oom (Professor de Pediatria)
02 Agosto 2007
Não é um tema fácil de tratar. Muitas coisas podem ser escritas, mas algumas só são percebidas se forem vividas. Deixo aqui o relato de algumas conversas com pais que se vão separar, ou que já o fizeram e que me pediram conselhos sobre a forma de melhor poderem ajudar os seus filhos a atravessar essa fase.
Não existem regras mágicas ou formas encantadas de resolver muitos dos problemas, e o que funciona numa família pode não funcionar noutra.
Cada pai, cada mãe, cada criança, é diferente de todas as outras. Mas há traços comuns em todas estas situações, há problemas habituais que podem ser antecipados, há soluções aceitáveis que podem ser partilhadas. É sobre isso que vamos conversar hoje.
Quando a decisão está tomada
Se os pais decidem que vão separar-se, a criança deve ser informada e não ser apanhada de surpresa com o facto consumado, como se ela não tivesse importância nenhuma. E não há nenhuma forma agradável para transmitir as más notícias.
Más notícias são sempre más notícias. O nível de conversação deve ser adaptado ao desenvolvimento mental da criança e alguns cuidados podem ser tomados de forma a minimizar os estragos que o conhecimento dessa realidade vai causar.
Começa por os dois (pai e mãe) estarem presentes, para que a criança possa sentir que a decisão é dos dois e que não há ressentimentos. E que ela é suficientemente importante para que a notícia lhe seja comunicada «oficialmente».
Em segundo lugar, o tom da conversa deve ser de tranquilidade, num ambiente calmo. Os pais devem mostrar que não estão satisfeitos com a situação, sabem que o ideal para a criança seria ficarem juntos, mas que tal não é possível.
Em terceiro, a conversa deve ser centrada na criança e não nos pais. Sentimentos de ansiedade, angústia, revolta ou ressentimento, sentidos tantas vezes por um ou os dois progenitores, devem ser deixados de fora nesta conversa.
Por fim, a criança deve ser reassegurada do amor dos pais, em conjunto e de cada um deles. É importante que sinta que os pais vão continuar a ser pais, a estar presentes ao seu lado para a ajudar e amar. E deve-lhe ser dito, sem rodeios, que a culpa da separação não é dela.
É natural que as crianças façam perguntas. Querem saber porquê, quando, como. As respostas devem ser dadas tendo em conta o grau de desenvolvimento da criança, mas sempre de uma forma clara. Nada de meias palavras. E nada de acusar o outro progenitor do que quer que seja. Deve ser dita a verdade, mas de forma a não assustar a criança. A criança não precisa de conhecer todos os detalhes, apenas os aspectos fundamentais.
Uma separação, vários divórcios
Não existe um divórcio, existem vários divórcios. O mais visível será a separação física dos pais, isto é, o facto de já não viverem juntos. Mas para a criança (e também para os seus pais) esta decisão envolve outras consequências que podem ser igualmente traumatizantes.
É o caso do divórcio-legal, que estipula com quem a criança vai viver, em que casa vai ficar, com que frequência vai estar com o outro progenitor.
São cada vez mais os casos em que a custódia da criança é conjunta, exercida por ambos os progenitores, mas na grande maioria dos casos é a mãe que fica com a custódia da criança e é sobre ela que recai a responsabilidade da tomada de decisões importantes em relação ao seu futuro.
O tempo que a criança partilha com cada um é geralmente foco de discórdia e muitas vezes os pais pensam primeiro neles e só depois no que o seu filho ou filha preferiria.
Há que ter bom senso. Não existem regras universais que sirvam para todos, mas há mínimos a respeitar.
É também o caso do divórcio-económico, com os custos da «família» a aumentarem e a ser necessário reduzir despesas.
Na enorme maioria dos casos, a criança e os pais (principalmente a mãe) passam a viver pior, do ponto de vista financeiro, após uma separação.
A criança toma gradualmente contacto com esta nova realidade e vê-se privada de algumas mordomias que antes tinha por garantidas.
E é o divórcio-social, que obriga a criança a adaptar-se a novas regras de convívio familiar. As visitas aos avós (principalmente paternos) não vão ser tão frequentes, alguns primos deixam de ser vistos com tanta frequência, e alguns vizinhos passarão a ser encontrados apenas quando está com um dos pais.
Assim, não se trata apenas da separação física dos pais, como se isso não bastasse, mas de muitos outros aspectos que surgem em simultâneo e provocam na criança uma mudança radical na sua forma de estar e de ver o mundo, tal como o via até então.
Como a criança reage ao stress
A separação dos pais, e tudo o que ela desencadeia, coloca a criança sob stress. As faces visíveis desse stress são as alterações de comportamento e de humor que os adultos percebem naquela criança e que dependem, entre outros factores, do seu grau de desenvolvimento.
Assim, nos bebés a separação dos pais passa inicialmente despercebida. Nesta idade, o que mais disturba o bebé é a falha na sua rotina e nos seus hábitos diários.
Quando isso acontece o bebé pode apresentar uma maior irritabilidade e choro, para além de dificuldades na alimentação ou alterações nos hábitos de sono.
Mais tarde, à medida que a criança vai crescendo vai-se dando conta do relacionamento existente entre os seus pais e que esse relacionamento é diferente do dos pais de alguns primos ou de outras crianças da escola.
Quando a separação se dá na idade pré-escolar, a criança já consegue perceber que algo de estranho se passa. Muitas crianças manifestam o seu stress através de regressões no seu desenvolvimento como voltar a querer chucha, começar a chuchar no dedo, voltar a fazer chichi na cama ou ter dificuldade em adormecer. Muitas vezes o sono passa a ser acompanhado por pesadelos sobre o medo do abandono.
A partir dos seis anos nada pode ser escondido à criança pois esta apercebe-se de tudo. É também uma das idades mais difíceis em termos de aceitação da nova realidade e é frequente a culpabilização pelo sucedido.
Nestas idades, o stress manifesta-se muitas vezes por sentimentos de tristeza e melancolia. São frequentes os comportamentos agressivos e podem surgir alguns problemas de relacionamento com os colegas da escola.
Mais frequentes ainda são as queixas relacionadas com o corpo como as dores de barriga frequentes ou as queixas de dores de cabeça diárias. Algumas destas crianças têm dificuldade em aceitar um esquema de partilha de tempo com o pai e a mãe e muitas vezes tentam tomar partido por um ou por outro.
A atitude correcta é manter o esquema acordado e conversar com a criança mostrando-lhe o quanto é importante para ela que mantenha o contacto com os dois progenitores. Nestas situações o ideal é o progenitor «preferido» (seja pai ou mãe) conseguir conversar com a criança dizendo que lhe parece muito importante que ela mantenha o contacto com o outro.
O adolescente pode reagir de formas muito distintas. Depressão, alterações súbitas e frequentes do humor, agressividade, ou mau rendimento escolar, tudo é possível.
Nos casos mais complicados a separação pode ser o rastilho para o início de uma actividade sexual despropositada ou para o consumo de álcool ou drogas. O adolescente pode ter dificuldade em aceitar uma partilha de tempo entre pai e mãe se achar que isso vai perturbar a sua actividade escolar ou as suas relações de amizade com colegas, familiares ou vizinhos.
De qualquer forma, um esquema de partilha deve ser instituído e seguido com poucas excepções. Apesar de muitas vezes o adolescente se mostrar muito independente e aparentar não querer saber dos problemas dos pais, continua a precisar de ajuda para encontrar um novo equilíbrio.
Todas estas formas de reacção demoram meses, por vezes anos, até que a criança ou o adolescente se sinta de novo confortável no seu novo equilíbrio familiar e emocional.
O papel dos pais é reduzir o stress na criança
Se é uma verdade que a separação não se vive sem stress, também o é que os pais podem ter um papel muito importante na intensidade e na forma como a criança e o adolescente vivem esta fase.
Infelizmente, o mais frequente é os pais estarem, nesta fase de viragem das suas vidas, muito virados para si. Trata-se de um acontecimento marcante, por mais que tenha ou não sido antecipado, e aquele homem e aquela mulher vão atravessar momentos mais ou menos complicados de angústia, solidão e culpabilidade.
Muitas vezes não têm paciência para a criança pois precisam de tempo para eles próprios. Noutras alturas a culpabilidade vem acima e enchem a criança com mimos disparatados e inapropriados.
Qualquer destas situações é perturbadora para a criança, mas é um facto que, numa altura em que o que a criança mais necessita é de estabilidade emocional (no fundo são os seus pais que estão a separar-se) aqueles que lhe são mais próximos (os seus pais) não estão disponíveis ou estão-o de uma forma inapropriada.
No limite, existem situações em que são os filhos que dão apoio aos pais, como acontece muitas vezes com as raparigas que confortam as suas mães que estão emocionalmente perturbadas.
Esta inversão de papéis não é saudável para a criança pois impede-a de ser ela a confortada para se preocupar em confortar. O pai ou mãe que se sente emocionalmente diminuído deve procurar ajuda, conforto e apoio de outras pessoas ou profissionais que não o seu filho ou filha, libertando-a desse peso.
Os pais devem encontrar tempo para eles próprios e o seu próprio equilíbrio emocional. E em seguida encontrar tempo para os seus filhos. É muito importante ter alguns momentos a sós com a criança como forma de fortalecer a relação. E é igualmente importante que o assunto «separação dos pais» ou «divórcio» não seja tabu.
A criança deve sentir-se à vontade para poder dele falar quando entender. Regularmente devem mesmo ser os pais a perguntar-lhe se ela quer falar sobre isso. A criança deve ser encorajada a expressar por palavras aquilo que sente e a não guardar tudo para si. O pior que pode acontecer é fazer de avestruz, enterrar a cabeça na areia e fingir que nada de importante se passou.
Estas tentativas de conversa devem manter-se ao longo do tempo, pois o que a criança sente ou consegue verbalizar hoje pode ser muito diferente do que a criança sente ou consegue verbalizar dentro de meses ou anos.
A criança tem de perceber, por parte dos pais, que as suas dúvidas, as suas angústias, o seu medo e principalmente a sua dor são compreensíveis e propositadas.
Ao mesmo tempo deve-lhe ser transmitida esperança e a certeza de que, por pior que tudo pareça num determinado momento, o tempo faz maravilhas. Pergunte-lhe regularmente se precisa de ajuda.
E a vida continua
Tão importante como a separação e os meses que se seguem, são os anos que se seguem. Muito da estabilidade emocional da criança vai passar pela estabilidade emocional dos pais.
Pais separados que continuam a discutir em frente aos filhos, pais que se agridem ou pais que não se respeitam, dão à criança uma visão deprimente do mundo e contribuem para prolongar o sofrimento da criança.
Para além disso, observar o pai ou a mãe a gritar ou a bater transmite à criança um modelo errado do que deve ser o comportamento humano e as relações sociais. Por mais perturbado que um adulto possa estar, tudo o que fizer em frente a uma criança, constitui um exemplo de comportamento para ela seguir.
É importante que, seja em casa do pai ou da mãe, a criança continue a ter regras incluindo fazer os trabalhos de casa, horas para as refeições, hora de ir para a cama e hábitos de leitura.
A falta de disciplina e a inconsistência, apesar de parecem resultar a curto prazo, criam na criança, com o tempo, um maior sentimento de desorientação e perda de valores.
A escola deve ser avisada da nova situação familiar da criança para que esta não fique embaraçada ou seja colocada perante perguntas ou situações que lhe podem provocar stress.
Igualmente importante é pedir na escola que as informações escolares sejam enviadas para casa de ambos os progenitores, para que todos possam estar a par do rendimento e actividades escolares.
É importante também não cair na asneira de tentar compensar a criança com bens materiais ou privilégios inapropriados. Qualquer perturbação emocional que a criança possa ter combate-se com carinho e compreensão, não com coisas.
O pior para as crianças nem é o divórcio em si, mas o conflito a que podem assistir antes e após a separação dos pais. Pai e mãe devem resistir á tentação de dizer mal um do outro à criança. Ela gosta dos dois e não quer ter que tomar partidos. Não é a guerra dela e não a obriguem a tomar partido pois isso é extremamente doloroso.
Da mesma forma, não é aconselhável que os pais utilizem a criança como pombo-correio e mensageira de insultos ou acusações mútuas. Pais que actuam assim não estão a ser razoáveis para com os seus filhos.
Em conclusão
A separação dos pais representa para uma criança um dos maiores desafios ao seu equilíbrio emocional. Não existem regras universais que tornem este processo menos doloroso e problemático mas alguns conselhos podem ser úteis de forma a minimizar as suas consequências.
Os pais devem estar atentos a alterações no comportamento dos seus filhos e actuarem em conformidade mas percebendo que a instabilidade emocional de uma criança se combate com estabilidade emocional dos pais e não com conflitos intermináveis entre os pais ou com coisas materiais.
Fonte: Pais&Filhos